
Nos últimos anos, o 5G tornou-se um dos principais impulsionadores da transformação digital em Portugal e representa uma oportunidade de crescimento económico transversal a vários sectores. Mas como está realmente a ser utilizado? Quais os sectores que mais beneficiam? Onde estão os desafios?
Para responder a estas questões, a Deloitte atualizou um estudo realizado em 2019, sobre o impacto económico do 5G até 2035. O estudo inicial projetava um impacto de 17 mil milhões de euros no output agregado das indústrias, valor que foi agora revisto para 17,2 mil milhões de euros, confirmando que o potencial do 5G se mantém sólido e alinhado com as previsões iniciais.
Apesar deste crescimento geral, as variações entre sectores são mais marcantes do que se previa, com algumas indústrias a acelerar na adoção do 5G e outras a manter um ritmo mais cauteloso. Na Conferência 5G em ação, organizada pela ANACOM, Hugo Pinto, líder do sector de Telecoms, Media & Entertainment da Deloitte Portugal, apresentou os resultados deste estudo, analisou o contributo da mais recente geração móvel para a economia portuguesa e identificou o que falta fazer para garantir a sua adoção total.
A indústria transformadora é o sector onde o impacto do 5G mais cresceu, com um aumento de 16% face à estimativa inicial. Esse crescimento resulta da digitalização acelerada dos processos produtivos, impulsionada pela adoção de IoT, Inteligência Artificial, análise de vídeo e veículos autónomos, que têm superado as previsões iniciais. Sendo a segunda maior indústria da economia portuguesa em termos de output, a modernização deste sector através da conectividade avançada traduz-se em ganhos expressivos de produtividade e competitividade, tornando as fábricas mais eficientes e preparadas para os desafios da Indústria 4.0.

O sector das utilities também regista uma evolução significativa, impulsionada pela crescente aposta na sustentabilidade, produção distribuída e implementação de smart grids. A eletrificação dos transportes e o crescimento do conceito de “prosumers” – consumidores que também produzem e partilham energia – reforçam o papel do 5G na gestão de infraestruturas energéticas, permitindo maior eficiência na distribuição e monitorização em tempo real.
No sector de transportes e logística, a implementação do 5G está a ser explorada para otimizar operações portuárias, ferroviárias e aeroportuárias, trazendo ganhos significativos em eficiência, segurança e monitorização em tempo real. O uso de redes privadas 5G e Edge Computing permite melhorar a gestão de tráfego, operações automatizadas e comunicação entre veículos autónomos e sistemas centrais.
Em Portugal, os investimentos no novo corredor ferroviário e no novo aeroporto deverão acelerar a adoção de soluções inteligentes baseadas em conectividade avançada, aumentando a eficiência no transporte de mercadorias e passageiros. Estes desenvolvimentos seguem o exemplo de projetos-piloto bem-sucedidos em grandes infraestruturas internacionais, como o Porto de Roterdão, onde a Deloitte está envolvida e onde o 5G está a ser testado para otimizar a movimentação de contentores, automação portuária e análise avançada de dados.
O sector do hospitality (hotelaria e turismo) tem mostrado uma adoção mais lenta do 5G porque, na maioria dos casos, as tecnologias existentes, como Wi-Fi e 4G, já satisfazem as necessidades operacionais. Muitos dos serviços digitais utilizados nos hotéis, como check-ins automatizados, reservas online, pagamentos digitais e conectividade para hóspedes, funcionam sem necessidade de baixa latência ou grande largura de banda, fatores em que o 5G se destaca.
Além disso, este sector é altamente fragmentado, com uma grande diversidade de estabelecimentos que não dependem de uma infraestrutura tecnológica padronizada, dificultando a adoção em larga escala. Como resultado, não há pressão económica para investir em 5G, ao contrário do que acontece na indústria ou nos transportes, onde a automação e a conectividade avançada trazem benefícios diretos e mensuráveis. Esta combinação de fatores explica porque o impacto do 5G no hospitality é mais moderado e tem menor crescimento previsto em comparação com outros sectores.
No sector das telecomunicações, a maturidade do 5G foi atingida mais cedo do que o previsto, levando a uma ligeira redução na estimativa de impacto para 2035. Segundo o estudo da Deloitte, esta diminuição não significa estagnação, mas sim que a adoção do 5G avançou mais rapidamente do que o esperado, acelerando a sua integração no mercado. Enquanto outros sectores ainda estão a testar e implementar soluções 5G, as telecomunicações já operam com esta tecnologia de forma generalizada, com a infraestrutura consolidada e a oferta estabilizada. Como resultado, o impacto incremental previsto para 2035 é menor, pois o crescimento mais expressivo já ocorreu numa fase anterior, reduzindo a margem de expansão futura.
Portugal e o 5G: Infraestrutura completa, adoção ainda em curso
Portugal avançou significativamente na implementação do 5G, posicionando-se entre os países com maior cobertura na União Europeia. A rápida expansão da infraestrutura demonstra que o país está preparado para a transição digital, criando as bases para a adoção de novas tecnologias e modelos de conectividade avançados.
Alguns dados apresentados pela Deloitte:
📌 100% dos municípios já dispõem de estações de base 5G.
📌 Mais de 10.000 estações base foram instaladas nos últimos três anos, aumentando significativamente a capacidade da rede.
📌 21% dos utilizadores móveis já utilizam regularmente 5G, refletindo uma adoção crescente da tecnologia.
📌 Foram investidos 567 milhões de euros na aquisição do espectro, complementados por milhares de milhões de euros na implementação da infraestrutura.
O impacto desta evolução foi reconhecido pela União Europeia, que, através do Digital Economy and Society Index (DESI), destacou Portugal como um caso de sucesso na adoção do 5G. O relatório confirma que o país está alinhado com os objetivos da Década Digital até 2030, demonstrando uma rápida evolução da conectividade e um ecossistema digital em crescimento.
Apesar da rápida expansão da infraestrutura, o verdadeiro desafio do 5G passa agora pela sua adoção efetiva no tecido empresarial. Para que a tecnologia cumpra o seu potencial, é essencial que as empresas e os diferentes sectores integrem o 5G nos seus processos produtivos e modelos de negócio.
Desafios em destaque: Multicloud, Edge Computing e Cibersegurança
Embora a infraestrutura esteja operacional, a adoção do 5G levanta desafios tecnológicos e estratégicos que exigem uma nova abordagem por parte das empresas. A transição para redes multicloud e Open RAN está a transformar a forma como as telecomunicações são geridas, obrigando os operadores a adaptarem-se a um novo paradigma. Além disso, modelos como “Network as a Service” e “Edge as a Service” estão a emergir como soluções que permitirão às empresas consumir conectividade de forma flexível e eficiente.
No entanto, com a crescente interligação entre redes móveis, TI e IoT operacional, a cibersegurança torna-se um desafio crítico. A expansão do 5G expõe uma superfície de ataque muito maior, exigindo soluções robustas para proteger dados e infraestruturas.
Outro ponto essencial é a produtização: sem soluções padronizadas e escaláveis, a adoção do 5G pode tornar-se morosa e economicamente inviável. O mercado precisa de blueprints de conectividade, cloud e edge computing que permitam uma implementação rápida do 5G, sem exigir investimentos elevados de cada empresa.
Um potencial de 17,2 mil milhões de euros a concretizar
O estudo da Deloitte confirma que o 5G tem potencial para transformar a economia portuguesa, mas essa evolução não acontecerá de forma automática.
📌 Com a infraestrutura já implementada, o desafio passa agora pela adoção eficaz da tecnologia nos sectores certos e da forma mais estratégica.
📌 O impacto projetado mantém-se elevado, com um output agregado de 17,2 mil milhões de euros até 2035.
📌 Para que o 5G se torne um verdadeiro motor de crescimento, será fundamental a colaboração entre operadores, empresas, governo e academia, garantindo que o ecossistema tecnológico amadurece e gera valor real para a economia.
No final da sua apresentação, Hugo Pinto salientou que o 5G representa um ecossistema que exige investimento, estratégia e cooperação. E acrescentou que, apesar de Portugal estar de parabéns pelo progresso realizado, o verdadeiro impacto desta revolução digital, ainda está por concretizar.
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Para mais informações sobre o projeto, consulte a apresentação completa aqui.
Visão do apresentador:
Durante a sua apresentação Hugo Pinto sublinhou o contributo determinante do 5G para o desenvolvimento económico e social e o respetivo impacto direto em vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.
ODS 8: Promover o crescimento económico inclusivo e sustentável, o emprego pleno e produtivo e o trabalho digno para todos
O 5G impulsiona o crescimento económico ao modernizar sectores estratégicos, aumentar a produtividade industrial e criar novas oportunidades de emprego qualificado. A digitalização acelerada na indústria transformadora, nas utilities e nos transportes melhora a eficiência, reduz custos operacionais e promove a inovação. A automação, IoT e redes inteligentes otimizam processos produtivos e logísticos, tornando Portugal mais competitivo e sustentável. Com um impacto económico estimado de 17,2 mil milhões de euros até 2035, o 5G é um catalisador essencial para o crescimento sustentável da economia.
ODS 9: Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação
A Deloitte referiu que a infraestrutura 5G já está presente em 100% dos municípios portugueses, permitindo a criação de redes privadas industriais, smart grids e soluções de Edge Computing. O sector da manufatura beneficia de automação avançada e veículos autónomos, enquanto os transportes e portos otimizam operações com conectividade de baixa latência. A adoção do 5G acelera a transição para fábricas inteligentes e cidades conectadas, fortalecendo a resiliência industrial e posicionando Portugal como um país inovador na digitalização da economia.
ODS 17: Reforçar os meios de implementação e revitalizar a Parceria Global para o Desenvolvimento Sustentável
O sucesso do 5G depende de um ecossistema colaborativo entre operadores, indústria, academia e governo para desenvolver soluções tecnológicas escaláveis e sustentáveis. Projetos como os testbeds industriais e pilotos 5G em portos e aeroportos demonstram a importância da cooperação entre o sector público e privado. A aposta em “Network as a Service” e “Edge as a Service” reforça a necessidade de alianças estratégicas para acelerar a adoção do 5G e maximizar o impacto da transformação digital.
Visão da audiência
ODS 9: Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação
ODS 8: Promover o crescimento económico inclusivo e sustentável, o emprego pleno e produtivo e o trabalho digno para todos
ODS 17: Reforçar os meios de implementação e revitalizar a Parceria Global para o Desenvolvimento Sustentável

A conferência 5G em ação reuniu representantes de empresas, operadores, academia, consultoras e várias entidades convidadas, proporcionando uma plataforma de partilha de conhecimento e experiências sobre as aplicações práticas do 5G.
Veja a apresentação aqui
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Saiba mais sobre este evento: 11.ª Conferência ANACOM | 5G em ação